Primeira República Espanhola.html

 
ca de en es fr it nl no pl pt ru ro fi sv tr vo


 

A Primeira República Espanhola foi o regime político que regeu a Espanha desde a sua proclamação pelas Cortes, a 11 de fevereiro de 1873, até a 29 de dezembro de 1874, quando o pronunciamento do general Martínez Campos deu começo à Restauração bourbônica.

A primeira tentativa republicana na história da Espanha foi uma experiência curta, caracterizada pela profunda instabilidade política e social e a violência. A República foi governada por quatro presidentes diferentes até que, apenas onze meses depois da sua proclamação, o general Pavia deu um golpe de estado e foi instaurada uma república unitária presidida por Francisco Serrano Domínguez.

No breve período ocorreram três guerras civis simultâneas: a Terceira Guerra Carlista, a sublevação cantonal na Espanha peninsular e a Guerra dos Dez Anos em Cuba. Os problemas mais graves para a consolidação do regime foram a falta de verdadeiros republicanos, a divisão destes entre federalistas e unitários e a falta de apóio popular.

Índice

editar Proclamação da Primeira República

Bandeira, de caráter provisório,[1] da Primeira República Espanhola

O rei Amadeu I renunciou ao trono da Espanha em 11 de Fevereiro de 1873. Esta renúncia foi motivada pelas dificuldades às que teve que enfrentar-se durante seu curto reinado, como a guerra em Cuba, o surgimento da Terceira Guerra Carlista, a oposição dos monárquicos alfonsinos, que aspiravam ao restauro bourbônico na figura de Afonso de Bourbon, filho de Isabel II, as diversas insurreições republicanas e a divisão entre seus próprios partidários.

O Congresso, com inclusão do Senado, estava reunido em sessão conjunta e permanente, e enquanto esperava alguma comunicação final do Rei erigiu-se em Assembléia Nacional. Imperava em esta uma maioria mais que absoluta de parlamentares monárquicos, pertencentes aos dois partidos monárquicos e dinásticos que até então se alternaram no governo: o partido radical de Manuel Ruiz Zorrilla e o partido constitucional de Práxedes Mateo Sagasta. Junto à estonteante maioria monárquica sentava-se na Assembléia Nacional uma minoria republicana, muito dividida entre federais e unitários. Um deles, o federalista Francisco Pi y Margall, apresentou à Assembléia a seguinte proposição:

A Assembléia Nacional assume os poderes e declara como forma de governo a República, deixando as Cortes Constituintes a organização desta forma de governo.

Pi y Margall, na sua defesa da proposta —da que era assinante com Figueras, Salmerón e outros deputados—, embora se reafirmava como federalista, renunciava nesse momento a impor como forma de governo a República federal com a esperança de serem as Cortes Constituintes (que deviam ser convocadas) que a declarassem, e anunciava seu acatamento a outra decisão diferente se assim for adotada democraticamente. Emilio Castelar subiu para o estrado e pronunciou este discurso:

Senhores, com Fernando VII faleceu a monarquia tradicional; com a fuga de Isabel II, a monarquia parlamentar; com a renúncia de Dom Amadeu de Sabóia, a monarquia democrática; ninguém acabou com ela, morreu por si mesma; ninguém traz a República, traem-na todas as circunstâncias, a traz uma conjuração da sociedade, da natureza e da História. Senhores, saudá-la-emos como o sol que se ergue com a sua própria força no céu da nossa pátria.

Após o eloqüente discurso de Castelar, entre vivos aplausos, foi proclamada a República Espanhola, com a resignação dos monárquicos, por 258 votos a favor e somente 32 contra:

A Assembléia Nacional resume todos os poderes e declara a República como forma de governo da Espanha, deixando às Cortes Constituintes a organização desta forma de governo. Escolher-se-á por nomeação direta das Cortes um poder executivo, que será amovível e responsável ante as mesmas Cortes.

Nesta mesma sessão, o republicano federal Estanislao Figueras resultou eleito "Presidente do Poder Executivo" (chefe de Estado e Governo) (não "Presidente da República", pois nunca se chegou a aprovar a nova Constituição que criava esse cargo); no seu discurso, disse que a chegada da República era «como o íris de paz e de concórdia de todos os espanhóis de boa vontade».

A aprovação dessas resoluções surpreendeu e desconcertou toda Espanha, já que nas Cortes, eleitas poucos meses antes, os republicanos eram uma minoria. Ruiz Zorrilla afirmava na Assembléia:

Protesto e protestarei, embora fique só, contra aqueles deputados que, tendo vindo ao Congresso como monárquicos constitucionais, se crêem autorizados a tomar uma determinação que da noite para o dia possa fazer mudar a nação de monárquica para republicana.

Para muitos, dada a impossibilidade de restaurar a Isabel II e a juventude do futuro Afonso XII, a República era a única saída possível, embora somente fosse como medida provisória, por motivo do insucesso inevitável que a aguardava.

editar Governo de Estanislao Figueras

Este primeiro governo era formado pelos federais e pelos progressistas, que já foram ministros durante a monarquia. Em ele quatro ministros do rei Amadeu; Echegaray, Becerra, Fernández de Córdoba e Berenguer, ocupavam os ministérios de Fazenda, Guerra, Marina e Fomento.

Ao começar, afrontavam uma desesperante situação financeira: déficit orçamentário de 546 milhões de pesetas, 153 milhões em dívidas de pagamento imediato e só 32 milhões para cobri-las. O Corpo de Artilharia fora dissolvido no momento de mais virulência nas guerras cubana e carlista, para as quais não havia suficientes soldados, armamento nem dinheiro com que o adquirir. Por outro lado, Espanha atravessava uma aguda crise econômica, coincidente com a grande crise mundial de 1873 e agravada pela instabilidade política; nos anos precedentes aumentara o desemprego entre jornaleiros e operários. As organizações proletárias responderam com greves, marchas, concentrações de protesto e a ocupação de terras abandonadas.

A 23 de Fevereiro, o recém eleito presidente da Assembléia Nacional, o radical Cristino Martos, organizou uma tentativa de golpe de Estado, chegando a Guarda Civil a ocupar o Ministério de Governação e a Milícia Nacional o Congresso, para instaurar uma república unitária. Isto provocou a primeira remodelação do governo substituindo aos ministros progressistas por ministros republicanos federais.

Doze dias após ser proclamada a República, foi assinado solenemente o cesse do serviço militar obrigatório, e criado o serviço voluntário. Cada soldado cobraria uma peseta diária e um pão. Criava-se ademais uma milícia de voluntários da República, com um soldo de 50 pesetas ao alistar-se e 2 pesetas e 1 pão diários.

O segundo governo de Figueras teve de enfrentar-se à tentativa de proclamação do Estat Català a 9 de Março dentro da República Federal Espanhola, que foi superado após uma série de gestões telegráficas com os dirigentes catalães. Pouco depois, a 23 de Abril, produziu-se um nova tentativa de golpe de Estado preparada por alfonsinos, membros da Unión Liberal, progressistas de Sagasta e setores monárquicos do Exército, mas fracassaram quando várias unidades se abstiveram na última hora.

Acostuma-se a considerar Pi y Margall como a alma deste governo que houve de enfrentar-se a um sem-fim de problemas já endêmicos para a Primeira República (Terceira Guerra Carlista; sublevações separatistas, neste caso da Catalunha; indisciplina militar, conspiração monárquica, etc.); o seu governo dissolveu a Assembléia e convocou Cortes Constituintes para 1 de Maio. A 23 de Abril, Cristino Martos, desta vez apoiado no governador civil de Madrid, Estébanez, tentou um novo golpe de Estado: um batalhão de milicianos tomou posições no Paseo del Prado e quatro mil voluntários mais, perfeitamente armados, concentraram-se na Praça da Independência com o pretexto de passar revista. Ficando a saber da intentona golpista, Pi y Margall (na ocasião ministro de Governação) mobilizou a Guarda civil. O ministro da Guerra, pela sua parte, após nomear capitão-general de Madrid a Baltasar Hidalgo, ordenou que o brigadier Carmona, com um batalhão de infantaria e algumas unidades de artilharia e cavalaria, marchara sobre os milicianos: o golpe de Estado foi insucesso apenas iniciado, e o governo dissolveu a Comissão Permanente do Congresso e os batalhões que participaram na conjura.

O governo convocou eleições para Cortes Constituintes em 10 de Maio, que resultaram em 343 cadeiras para republicanos federais e 31 para o restante das forças políticas. As eleições desenvolveram-se em condições pouco ortodoxas, e sua representatividade resultou ridícula, pois não participaram nem os carlistas (em guerra de 1872), nem os monárquicos alfonsinos de Cánovas del Castillo, nem os republicanos unitários, nem sequer as incipientes organizações operárias da Internacional, que se pronunciaram pela abstenção. Foram possivelmente os comícios com a participação mais baixa da História da Espanha. Em Catalunha, apenas votou 25% do eleitorado; em Madrid, 28%.

editar A República federal

A 1 de Junho de 1873 abriu-se a primeira sessão das Cortes Constituintes e começou a apresentação de propostas. A 7 de Junho foi debatida a primeira delas, subscrita por sete deputados, que dizia:

Artigo único. A forma de governo da Nação espanhola é a República democrática federal.

O Presidente, fazendo cumprir o que ordenava o Regulamento das Cortes para a aprovação definitiva das propostas de lei, dispôs celebrar uma votação nominal ao dia seguinte. A 8 de Junho foi aprovada a proposta com o voto favorável de 219 deputados e somente 2 contra, proclamando-se esse dia a República federal. Ao tempo, os federalistas apostavam por um modelo confederal de tipo helvético, constituindo-se diretamente em cantões independentes.

Assim narrava Benito Pérez Galdós o clima parlamentar da Primeira República:

As sessões das Constituintes atraíam-me, e a maioria das tardes passava-as na tribuna da imprensa, entretido com o espetáculo de indescritível confusão que davam os pais da Pátria. O individualismo sem freio, o fluxo e refluxo de opiniões, desde as mais sisudas às mais extravagantes, e a funesta espontaneidade de tantos oradores, enlouqueciam o espectador e impossibilitavam as funções históricas. Dias e noites transcorreram sem que as Cortes decidissem em que forma se havia de nomear Ministério: se os ministros deviam ser eleitos separadamente pelo voto de cada deputado, ou se era mais conveniente autorizar a Figueras ou a Pi para apresentar a lista do novo Governo. Acordados e recusados foram todos os sistemas. Era um jogo pueril, que causaria riso se não nos movimentasse à grandíssima pena.

Presidindo um Conselho de Ministros, farto de debates estéreis, chegou Estanislao Figueras a gritar em catalão: «Senhores, já não agüento mais. Vou ser-lhes franco: estou até aos colhões de todos nós!»[2] Tão farto que a 10 de Junho deixou dissimuladamente sua demissão no seu escritório na Presidência, foi dar um passeio pelo parque do Retiro e tomou o primeiro comboio que saiu da estação de Atocha. Não baixou até chegar a Paris.

editar Governo de Francisco Pi y Margall

A república federal para Pi y Margall:

O procedimento —não é preciso ocultá-lo—, era abertamente contrário ao anterior: o resultado podia ser o mesmo. As províncias iam estar representadas nas novas Cortes, e, se estas tinham formada idéia sobre os limites em que haviam de girar os poderes dos futuros Estados, às Cortes podiam levá-la e nas Cortes sustê-la. Como determinando a esfera de ação das províncias viria a ficar determinada pelo outro procedimento do Estado, determinando agora a do Poder central, determinava-se, quisera-se ou não, a das províncias. Um e outro procedimento podiam, sem dúvida, ter produzido uma mesma constituição e não seria, ao meu jeito de ver, nem patriotismo nem político dificultar por não transigir por este ponto, a proclamação da República.

Se o procedimento de embaixo a cima não era mais lógico e adequado para a idéia da Federação, era, por outro lado, o de cima abaixo mais próprio de uma nacionalidade já formada como a nossa, e na sua aplicação muito menos perigoso. Não havia solução de continuidade no Poder; não se suspendia nem por um só momento a vida da nação; não era de temer que surgissem graves conflitos entre as províncias; era a obra mais fácil, mais rápida, menos exposta a contratempos e vaivens...

Francisco Pi y Margall

Após a fuga para França de Figueras, ao advertir o vazio de poder já ia pronunciar-se o general Manuel Sodas quando um coronel da Guarda Civil, José de la Iglesia, apresentou-se com um piquete no edifício do Congresso e anunciou aos deputados que dali não saía ninguém até terem eleito um novo Presidente. Elegeram a 11 de Junho o também federalista Francisco Pi y Margall, que ao apresentar o seu governo na Assembléia declarou que não tinha programa e que não sabia o que fazer. O esforço principal do novo governo seria a elaboração de uma nova Constituição, bem como a aprovação de uma série de leis de caráter social: o reparto de terras desamortizadas entre arrendatários, colonos e parceiros, o restabelecimento do exército regular, com levas obrigatórias, a separação da Igreja e o Estado, a abolição da escravidão, o ensinamento obrigatório e gratuito, a limitação do trabalho infantil, a criação de jurados mistos de empresários e trabalhadores, o direito à sindicação obreira e a jornada de trabalho de 8 horas.

A 16 de Junho foi elegida uma comissão de 25 membros que devia elaborar a nova Constituição, apresentando o projeto de Constituição Federal da República Espanhola, cuja redação atribui-se nomeadamente a Castelar, ao dia seguinte para seu debate.

A 28 de Junho, Pi y Margall renovou a composição do seu governo, mas devido à lentidão e as constantes demoras durante os debates sobre a nova Constituição, os acontecimentos precipitaram-se com celeridade. A 30 de Junho o município de Sevilha acordou transformar-se em República Social, e o dia seguinte os deputados federais intransigentes abandonaram as Cortes. Uma semana mais tarde, em Alcoi a 9 de Julho, onde desde 7 de Julho desenvolvia-se uma onda de assassinatos e acertos de contas ao amparo de uma greve revolucionária (a chamada Revolução do petróleo) dirigida por elementos locais da seção espanhola da AIT. Era somente o começo. Pouco depois, começa a sublevação cantonalista com greves gerais em toda Espanha, soldados assassinando oficiais, prefeitos linchados, e um centenar de mortos.

Selo do cantão federal de Valência.

Os focos federais do país não estouraram em forma de Estados autônomos, senão numa constelação de cantões independentes. Os levantamentos sucedem-se por diversas localidades do Levante e a Andaluzia primariamente. Houve-os de âmbito provincial como Valência e Málaga, outros mais localizados, como Alcoi, Cartagena, Sevilha, Cádiz, Almansa, Torrevieja, Castellón de la Plana, Granada, Salamanca, Bailén, Andújar, Tarifa e Algeciras, e houve mesmo tão pequenos quanto a povoação manchega de Camuñas e a murciana de Jumilla.

O mais conhecido e ativo de todos os cantões foi o de Cartagena,que estourou a 12 de Julho naquela base militar e naval, sob a inspiração do deputado federal murciano Antonio Gálvez Arce, conhecido como Antonete.

Bandeira cantonal de Cartagena em 1873

A primeira façanha dos cantonais cartageneiros foi apoderar-se do castelo de São Julián, o que motivou um curioso telegrama do capitão general do Departamento ao ministro de Marina: «Castelo San Julián hasteia bandeira turca». Essa "bandeira turca" era em realidade a bandeira vermelha da República Federal, a primeira bandeira vermelha na história da Espanha. Gálvez apaixonou à marinharia com a sua inflamada oratória e apoderou-se da esquadra fundeada no porto, que nesse momento compunha-se do melhor da Armada. Com a frota no seu poder espargiu o terror na costa mediterrânea próxima, e foi declarado pirata por decreto do governo de Madrid. Já em terra, dirigiu uma marcha sobre Madrid que foi desbaratada em Chinchilla. O cantão de Cartagena cunhou moeda própria, o duro cantonal, e resistiu seis meses de guerra e independência.

Duas fragatas cantonais, a Almansa e a Vitória, saíram de Cartagena «para uma potência estrangeira» (é dizer, a Almeria), para arrecadar fundos. Ao se recusar a cidade a pagar, foi bombardeada e tomada pelos cantonalistas, quem cobraram eles mesmos o tributo. O general Contreras, no comando da frota, fez-se render honra ao desembarcar, curiosamente ao som da Marcha Real. A seguir, repetiram façanha em Alicante e, de volta a Cartagena, foram apresados como piratas pelas fragatas couraçadas HMS Swiftsure e SMS Friedrich Karl, britânica e alemã respectivamente.

houve dias daquele verão em que críamos completamente dissolvida nossa Espanha. A idéia da legalidade fora perdida em tais termos que um empregado qualquer de Guerra assumia todos os poderes e notificava-o às Cortes, e os encarregados de dar e cumprir as leis desacatavam-nas sublevando-se. Não se tratava, como em outras ocasiões, de substituir um Ministério existente nem uma forma de Governo à forma admitida; tratava-se de dividir em mil porções a nossa pátria, semelhantes às que seguiram à queda do califado de Córdoba. De províncias chegavam as idéias mais estranhas e os princípios mais descabelados. Uns diziam que iam ressuscitar a antiga Coroa de Aragão, como se as fórmulas do Direito moderno foram conjuros da Idade Média. Outros diziam que iam constituir uma Galiza independente sob o protetorado de Inglaterra. Jaén apercebia-se a uma guerra com Granada. Salamanca tremava pelo encerramento da sua gloriosa universidade e o eclipse do seu predomínio cientista (...) A sublevação vinho contra o mais federal de todos os Ministérios possíveis, e no momento mesmo em que a Assembléia traçava um projeto de Constituição, cujos maiores defeitos provinham da falta de tempo na Comissão e da sobra de impaciência no Governo.
Emilio Castelar

Mais grave mesmo era o problema da Terceira Guerra Carlista, que atuava com total liberdade no País Basco, Navarra e Catalunha, e estendia sua ação por toda a península através de partidas, enquanto o pretendente Carlos VII formara em Estella um governo com os seus próprios ministérios, que começava mesmo a cunhar moeda, enquanto a conivência dos franceses permitia receber ajuda externa.

Sem tempo de a Constituição da República Federal poder ser aprovada nas Cortes, Pi y Margall viu-se numa situação crítica. Recusava reprimir a rebelião dos cantões porque declarava, com toda lógica, que os sublevados não faziam mais que seguir a doutrina que ele proclamara, em vista do qual, viu-se forçado a demitir a 18 de Julho, após 37 dias de mandato. Desta forma descreveu as decepções que lhe tinha dado a política:

Têm sido tantas as minhas amarguras no poder, que não podo cobiçá-lo. Perdi no governo a minha tranqüilidade, o meu repouso, as minhas ilusões, a minha confiança nos homens, que constituía o fundo do meu caráter. Por cada homem agradecido, cem ingratos; por cada homem desinteressado e patriótico, centos que não buscavam na política senão a satisfação dos seus apetites. Recebi mal por bem...
Pi y Margall

editar Projeto de Constituição Federal

O projeto de Constituição Federal da Primeira República Espanhola desenvolvia-se ao longo de 117 artigos organizados em 17 títulos.

No seu primeiro artigo fixava o seguinte:

Compõem a Nação Espanhola os Estados de Andaluzia Alta, Andaluzia Baixa, Aragão, Astúrias, Baleares, Canárias, Castela a Nova, Castela a Velha, Catalunha, Cuba, Estremadura, Galiza, Múrcia, Navarra, Porto Rico, Valência, Vascongadas. Os Estados poderão conservar as atuais províncias ou modificá-las, segundo suas necessidades territoriais.

Estes estados teriam uma «completa autonomia econômico-administrativa e toda a autonomia política compatível com a existência da Nação», bem como «a faculdade de darem-se uma Constituição política» (artigos 92º e 93º).

O projeto de Constituição previa no seu Título IV, além dos clássicos Poder Legislativo, Poder Executivo e Poder Judicial, um quarto Poder de Relação que seria exercido pelo Presidente da República.

O Poder Legislativo estaria nas mãos das Cortes Federais, que se comporiam de: Congresso e Senado, sendo o Congresso uma câmara de representação proporcional com um deputado «por cada 50.000 almas» que seria renovada cada dois anos, e o Senado, uma câmara de representação territorial sendo eleitos quatro senadores pelas Cortes de cada um dos Estados.

O Poder Executivo seria exercido pelo Conselho de Ministros, cujo Presidente seria eleito pelo Presidente da República.

O artigo 40 do projeto dispunha: «Na organização política da Nação espanhola todo o individual é da pura competência do individuo; todo o municipal é do Município; todo o regional é do Estado, e todo o nacional, da Federação». O artigo seguinte declarava que «Todos os poderes são eletivos, amovíveis e responsáveis», e o artigo 42 que «A soberania reside em todos os cidadãos, e exerce-se em representação sua pelos organismos políticos da República, constituída por meio do sufrágio universal».

O Poder Judicial residiria no Tribunal Supremo Federal, que se comporia «de três magistrados por cada Estado da Federação» (artigo 73º) que nunca seriam eleitos pelo Poder Executivo nem o Poder Legislativo. Ademais estabelecia que todos os tribunais fossem colegiados e a instituição do Jurado para toda classe de delitos.

O Poder de relação seria exercido pelo Presidente da República Federal cujo mandato duraria «quatro anos, não sendo imediatamente reelegível», como diz o artigo 81º do projeto.

editar Governo de Nicolás Salmerón

Após aceitar a demissão de Pi y Margall, foi eleito Presidente do Poder Executivo Nicolás Salmerón, com 119 votos a favor e 93 votos contra.

O novo presidente, que era um republicano federal moderado, defendia a necessidade de chegar a um entendimento com os grupos mais moderados ou conservadores e uma lenta transição para a república federal. Sua oratória era demolidora. Francisco Silvela dizia que Salmerón, nos seus discursos, somente usava uma arma: a artilharia. Antonio Maura caracterizava o tom professoral de Dom Nicolás dizendo que «sempre parece estar a se dirigir para os metafísicos de Albacete».

Já durante a sua etapa como Ministro de Graça e Justiça no governo de Estanislao Figueras, promoveu a abolição da pena de morte, bem como a independência do poder judiciário frente ao político.

Sua nomeação produziu uma intensificação do movimento cantonalista, para cujo controlo teve que recorrer a generais abertamente contrários à República Federal, mandando sendas expedições militares a Andaluzia e Valência, no comando dos generais Pavía e Martínez Campos respectivamente, que um após outro foram submetendo aos diferentes cantões, exceto o de Cartagena que resistiria até 12 de Janeiro de 1874.

Os seus generais solicitaram o "informado" do governo e sua assinatura para executar várias sentenças de morte a vários soldados desertores no frente carlista, imprescindível, segundo eles, para a recuperação da disciplina do exército. Salmerón, homem de princípios liberais muito avançados, negou-se a conceder o "informado", e, como figura inscrito na pedra do seu mausoléu: «Abandonó el poder por no firmar una sentencia de muerte ». De tal jeito, demitiu a 6 de Setembro.

editar Governo de Emilio Castelar

Ao dia seguinte, a 7 de Setembro, foi eleito para ocupar a Presidência do Poder Executivo o unitário Emilio Castelar, catedrático de História e salientado orador, por 133 votos a favor frente aos 67 obtidos por Pi y Margall. Durante a sua anterior etapa, como Ministro de Estado no governo de Estanislao Figueras, promoveu e conseguiu que fosse aprovada a abolição da escravidão no território ultramarino de Porto Rico, embora não na Cuba pela situação de guerra que vivia.

Por ocasião da difícil situação da República, com o agravamento da Guerra Carlista, Emilio Castelar começou a reorganização do exército, anunciando ante as Cortes que «para suster esta forma de governo preciso de muita infantaria, muita cavalaria, muita artilharia, muita Guarda civil e muitos carabineiros». Apesar da oposição federalista, as Cortes concederam-lhe poderes extraordinários para governar, após o qual se encerraram as Cortes a 20 de Setembro. Confirmou as sentenças de morte que provocaram a demissão do seu predecessor, restabeleceu a ordem e deixou a ponto de rendição aos cantonais de Cartagena.

Contudo, o caos provocado pela sublevação cantonal e o recrudescimento da Guerra Carlista levaram a reabrir as Cortes a 2 de Janeiro de 1874, para submeter a votação a gestão do seu governo e solicitar plenos poderes com os que salvar a República do descrédito.[3]

A sessão das Cortes foi aberta a 2 de Janeiro de 1874 mais os federais lançaram-se contra D. Emilio Castelar, a quem apoiava o capitão-general de Madrid, D. Manuel Pavía, antigo partidário de Prim, com quem se alçara em Villarejo de Salvanés. Duas forças bem diferentes ameaçavam com interromper as deliberações das Cortes: os federais, desejosos de acabar com Castelar, e as tropas do general Pavía, partidário de Castelar, que tinha decidido acudir no seu socorro para evitar a sua derrota frente do federalismo.

Saiam já os regimentos comprometidos pela ordem do capitão-general, quando as Cortes conheceram a derrota de Castelar por 119 votos contra 101. Demitiu o último presidente da República, e o das Cortes, Nicolás Salmerón, ordenou uma nova votação para escolher a um novo chefe do Poder Executivo.

Pavía situou-se na praça frente ao edifício com o seu estado maior e ordenou a dois ajudantes impor a Salmerón a dissolução da sessão de Cortes e a desocupação do edifício em cinco minutos. A Guarda Civil, que custodiava o Congresso, pôs-se às ordens do general e ocupou os corredores do Congresso (sem chegar a entrar no salão). Eram as sete menos cinco da manhã, quando se estava procedendo à votação para escolher o candidato federal Eduardo Palanca, e Salmerón, ao receber a ordem do capitão-general, suspendeu a votação e comunicou o gravíssimo acontecimento aos deputados. Então, estes abandonaram o edifício a toda a pressa.

Pavía, que era republicano unitário, ofereceu a Emilio Castelar continuar na presidência, mas este recusou ao não querer manter-se no poder por meios antidemocráticos. Estes feitos supuseram o final oficioso da Primeira República, embora oficialmente continuasse quase outro ano mais.

Alegoria à I República Espanhola, publicada numa revista liberal.
Série
História de Espanha
Espanha na Pré-História
Espanha pré-romana
Hispânia
Visigodos e Suevos
Domínio árabe e a Reconquista
A Reconquista e o Reino das Astúrias
Reinos de Leão, Castela, Aragão e Navarra
Dinastia de Borgonha
Dinastia de Trastâmara
Reis Católicos
Descobrimentos
Guerra da Sucessão Espanhola
Guerra Peninsular
Governo de Fernando VII
Guerras Carlistas
Revolução de 1868 e Sexênio Revolucionário
Dinastia de Sabóia
Primeira República
Restauração Bourbônica
Ditadura de Primo de Rivera
Segunda República Espanhola
Guerra Civil
Franquismo
Transição Espanhola
Categoria: História de Espanha

editar A República unitária

Em meio da convulsão política, entrou em Cartagena a 12 de Janeiro o general López Domínguez, substituto de Martínez Campos, enquanto Antonete Gálvez, com mais de mil homens, conseguia esquivar o cerco a bordo da “Fragata blindada Numancia”, e pôr rumo a Orão. O final da experiência cantonal foi pagado por Gálvez com o exílio, mas a Restauração permitiu, mediante anistia, regressar para a sua Torreagüera natal. Nesta época principiaria uma estranha e entranhável amizade com dom Antonio Cánovas del Castillo, máximo responsável pela Restauração, quem considerava a Gálvez um homem sincero, honrado e valente, embora de idéias políticas exageradas.

Entretanto, após a negativa de Emilio Castelar, foi encarregue o general Serrano, recém-chegado do seu exílio em Biarritz pela sua implicação na intentona golpista de 23 de Abril, a formação de um governo de concentração que agrupou a monárquicos, conservadores e republicanos unitários, e do que foram excluídos os republicanos federais.

O general Serrano, duque da Torre, de 63 anos, antigo amante de Isabel II, já tinha desempenhado por duas vezes a chefatura do Estado. Proclamou a República unitária, fazendo-se cargo da Presidência do Poder Executivo, e governou prescindindo das Cortes numa ditadura republicana conservadora. Durante o seu mandato foi submetido o último dos cantões insurretos, o de Cartagena, e concentraram-se os esforços na guerra carlista no Norte da Espanha. O general tentou sem sucesso consolidar-se no poder de jeito ditatorial, segundo o exemplo do regime de duques e generais que fora imposto na França após a queda de Napoleão III e a derrota da Comuna de Paris.

Aos poucos meses, a 13 de Maio cedeu a presidência do governo a Juan Zavala de la Puente para se encarregar pessoalmente das operações contra os carlistas no Norte. E mais tarde encarregou-e o governo a Práxedes Mateo Sagasta a 3 de Setembro. A 10 de Dezembro começou o sítio de Pamplona, mas foi interrompido pelo pronunciamento de Sagunto.

editar Final da Primeira República

A 29 de Dezembro de 1874, o general Martínez Campos pronunciou-se em Sagunto em favor da restauração no trono da monarquia bourbônica na pessoa de D. Alfonso de Bourbon, filho de Isabel II. O governo de Sagasta não se opôs a este pronunciamento, permitindo o restauro da monarquia. O triunfo da restauração Bourbônica foi conseguido graças ao trabalho prévio de Antonio Cánovas del Castillo, que porém era contrário ao pronunciamento militar.

Até 1931, os republicanos espanhóis celebravam em 11 de Fevereiro o aniversário da Primeira República. Posteriormente, a comemoração mudou para 14 de Abril, aniversário da proclamação da Segunda República.

Referências

  1. www.ejercito.mde.es
  2. «Senyors, ja no aguanto més. Vaig a ser-os franc: estic fins als collons de tots nosaltres!».
  3. Somente fora reconhecida por duas nações igualmente federais, Suíça e os E.U.A., e dois países hispano-americanos.

editar Bibliografia

  • BARÓN FERNÁNDEZ, José. El movimiento cantonal de 1873 (1ª República). Ediciós do Castro, A Corunha, 1998. ISBN 84-7492-896-6
  • CATALINAS, José Luis y ECHENAGUSÍA, Javier. La Primera República. Reformismo u revolución social. Alberto Corazón, Madrid, 1973.
  • GUARDIOLA, Tomás. "Historia de Jumilla". Imprensa Nogués, Murcia, 1976.
  • JOVER ZAMORA, José María. Realidad y mito de la Primera República.. Espasa-Calpe, Pozuelo de Alarcón, 1991. ISBN 84-239-1994-3
  • LACOMBA, Juan Antonio. La I República. El trasfondo de una revolución fallida. Guadiana, Madrid, 1976.
  • LÓPEZ CORDÓN, María Victoria. La Revolución de 1868 y la República. Siglo XXI, Madrid, 1976.
  • VV.AA. España, 1868-1874. Nuevos enfoques sobre el Sexenio Democrático. Junta de CyL, Valladolid, 2002. ISBN 84-9718-089-5

editar Ver também

editar Ligações externas

All Right Reserved © 2007, Designed by Stylish Blog.